domingo, 4 de setembro de 2016

Reservatório Vs Rio

Li a seguinte mensagem: "Nunca se torne um reservatório se você pode ser um rio" - Osho. E então me veio à mente várias e várias ocasiões de minha vida nas quais as pessoas tentavam me tornar um reservatório. Para esclarecer o que é um reservatório e um rio vou citar a primeira parte da mensagem:

"Sempre permaneça aventureiro. Por nenhum momento se esqueça de que a vida pertence aos que investigam. Ela não pertence ao estático. Ela pertence ao que flui".

Então, o que acontece é que na medida em que vamos crescendo as coisas vão mudando de perspectiva. O meu sonho de criança em ser astronauta se mostrou apenas um sonho mesmo. Também quis ser veterinário. Educador físico. Jornalista. Cartunista. E tantas outras coisas que na infância sempre foi possível. Na verdade ainda é. Quantas notícias não lemos por aí falando de pessoas com seus setenta anos ou mais que seguiram seus sonhos e se formaram no que bem queriam. 

Eu cresci com bombardeios de conselhos, em várias esferas de relacionamentos, principalmente de pessoas mais velhas que eu, dizendo que é importante ter o ensino superior e depois um trabalho fixo. mas tem que ser concursado, se não a vida vai ser cheia de tristeza e falta de dinheiro. O dinheiro é a vida. O dinheiro e a estabilidade financeira tem que ser a sua meta de vida. Mas também você tem que formar uma família e ter filhos. Por quê? eu perguntava mentalmente. Mas antes de perguntar verbalmente o assunto já era. Normalmente alguém que me dizia isso tinha que sair pra trabalhar rápido, deixar alguém cuidando de seus filhos e depois voltar pra casa pra dormir e repetir isso todos os dias da semana.

Ou seja, eu precisava conseguir uma zona de conforto e, assim que conseguisse, jogar uma âncora nela. Eu deveria ser represa. Não culpo ninguém por dizer essas coisas, tenho certeza que é na maior das boas intenções. Mas isso na cabeça de uma criança/adolescente vai fazer efeito no futuro. O efeito que a pessoa talvez tenha sofrido por também ter ouvido essas coisas. 

"Não faça tatuagem porque você não vai conseguir emprego nunca" (seja represa).
"Não use piercings porque é coisa de maloqueiro" (seja represa).
"Passe em um concurso e fique nele para todo o sempre - mesmo que você não goste - o importante é o dinheiro" (seja represa).

Temos que entender que realmente precisamos de dinheiro para comer, comprar roupas, etc. Mas o ponto em que quero chegar é que o dinheiro não é tudo. Dizer isso é meio estranho agora, porque eu estou quase preso na minha zona de conforto. As coisas que me disseram surtiram efeito de alguma forma. Mas venho sentindo uma infelicidade latente por estar virando uma represa. Eu não entendo como as pessoas conseguem viver infelizes, mas cheias de dinheiro. Algumas são infelizes e sem dinheiro. 

Muito bom  quem consegue trabalhar em um emprego que gosta. Que faz porque tem amor àquilo, independente do que seja. Às vezes tenho inveja de quem conseguiu se estabelecer num local e é feliz ali. Sozinho ou acompanhado, com família ou sem família. Uma pessoa livre. Ser represa não quer dizer morar num lugar pra sempre. Ser represa é ser prisioneiro da vontade dos outros. É ter medo de fazer algo que goste por ser arriscado e permanecer na inércia de algo que não te faz feliz. 

Bom, a represa na qual estou me tornando, com a minha porcentagem de culpa e medo, claro, não está me fazendo muito bem. Ver a represa em que os outros se tornaram ou estão se tornando também não me fazem muito bem, mas para isso eu só posso tentar conversar. Você já perguntou se alguém é feliz? Eu já. Estou perguntando isso constantemente às pessoas e a resposta que recebo começa com alguns segundos de olhar assustado pra mim, como se eu fosse louco (...) e depois dizem alguma coisa sem convicção nenhuma. E mudam de assunto. Eu também venho me perguntando se sou feliz e se fico em dúvida é porque não estou. Então algo tem que ser feito. Estou tentando me tornar um rio. Mesmo que o pessimismo dos dias atuais tentem me deixar com medo, e às vezes deixam, eu estou quebrando, aos poucos, esse muro da zona de conforto. Estou cortando a âncora que me prende. E essa âncora pode ser tanta coisa: emprego, amigos, família, dinheiro, estabilidade... O que vem depois que a represa se arrebenta? Eu não sei, mas vou saber logo.

E você? É feliz?

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