quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Mental [conto]

No livro Sobre a Escrita, de Stephen King, o qual é uma autobiografia e ao mesmo tempo uma aula sobre como ser escritor, ele passa uma pequena tarefa. A tarefa é escrever uma narrativa sem enredo sobre uma determinada situação que ele explica. Então eu fiz. E aqui está:

Mental

            A vida sempre foi boa para Ricardo. Nunca lhe faltou dinheiro, apesar de precisar abdicar de certas coisas para que realmente não lhe faltasse, trabalhar numa fábrica de doces não era fácil, mas também não era difícil. Namorava uma moça que começava a amar, Jane, há alguns anos. Loira de olhos verdes e com uma beleza angelical, não que ele se importasse tanto com o exterior das pessoas, tendo em vista que o interior de Jane era tão bonito quanto. Ambos estudavam na universidade Estadual no período noturno e só tinham realmente tempo para namorar aos fins de semana, o que não diminuía a atração que um tinha pelo outro, pelo contrário, só fortalecia a relação.
            A cidade em que viviam era do interior, mas nem por isso tão pequena. Era a segunda maior cidade do Estado. Os dois se encontravam em uma das praças da cidade para namorar. Jane nunca concordara que Rodrigo fosse busca-la em casa em sua moto, ela preferia encontra-lo na praça. Quando o shopping foi inaugurado, eles passaram a se encontrar nele para assistir a filmes, mas nunca deixaram de ter seus momentos na praça central, local onde se conheceram.
            Um ano depois que se conheceram, resolveram os preparativos para o casamento. Jane não podia engravidar, o que não seria empecilho para realizar o sonho de Ricardo em ser pai, eles poderiam adotar futuramente. O casamento foi simples, bonito e apenas com os familiares mais próximos. Os pais de Jane não compareceram, mas mandaram uma carta com as felicitações e um presente em dinheiro para ajudar na lua de mel. A família da noiva era de outro Estado e o casamento seria o momento em que Ricardo iria conhecê-la. Novas oportunidades apareceriam, dizia Jane.
            A maioria dos amigos era da faculdade. Os outros, do trabalho de Ricardo. Jane trabalhava vendendo salgados na faculdade, o que fazia aumentar o carisma que Rodrigo sentia por ela. Ver o esforço de sua mulher em viver longe da família e se adaptar tão facilmente em outra cidade, com novos, e poucos, amigos.
            A lua de mel foi numa pequena cidade do litoral. A pousada na qual eles ficaram era famosa por acolher recém-casados. Os três dias foram os dias mais bonitos na vida dos dois. Ricardo demonstrava todo seu amor por Jane. Jane sempre com um sorriso acolhedor e tímido. O amor emanava do casal como um campo de força. Foi nestes dias que Rodrigo sabia que havia encontrado a mulher de sua vida.
            No último dia da lua de mel o casal teve uma noite de amor na areia da praia. Adormeceram olhando para a grande lua cheia e contando as estrelas em um planejamento para a nova vida que se iniciaria no dia seguinte. Rodrigo ainda não sabia, mas aqueles três dias foram os últimos dias felizes de sua vida.

            Alguns meses depois Jane teve uma leve mudança de comportamento. Eles haviam se mudado para a casa que Rodrigo financiara. Era uma casa grande, já que se encontrava na periferia da cidade e era de interesse de ambos uma casa com espaço para quando adotassem os filhos. Rodrigo queria um casal. Jane se tornara irritadiça e estressada. Não produzia mais salgados para vender na faculdade e passava dias sem ir às aulas se queixando de dores na cabeça. Sempre no café da manhã, o cheiro de café servia de plano de fundo para a mesma conversa.
            __ Vamos ao médico, querida. __ Pedia Ricardo.
            __ Eu não preciso de médico! __ Falava Jane com as mãos na cabeça.
            __ Eu preciso ir trabalhar, você ficará bem?
            __ Claro que eu ficarei bem, Ricardo. Vá trabalhar!
            Os meses se passaram. Logo as discussões se agravaram. Ricardo percebia, assustado, a mudança na esposa. Jane contara, em uma das discussões, que seus pais estavam mortos e ela inventara a carta com o dinheiro para a lua de mel. Mas ela não disse onde conseguira tanto dinheiro para forjar o presente. Com o tempo ela começara a agredir Ricardo com objetos. Ele, sem conseguir reagir, permanecia se defendendo como podia para não machuca-la. Aquele sorriso bonito e tímido que Jane mostrara na lua de mel se transformara em gritos e xingamentos.
            __ Eu não aguento mais isso, Jane! __ Gritou Ricardo pela primeira vez com sua esposa.
            __ O quê? __ Falou Jane observando o marido com olhos vermelhos de lágrimas. Ela costumava chorar enquanto brigava com ele.
            __ Não podemos continuar desse jeito. __ Falou Ricardo olhando para os arranhões em seus braços.
            A mulher respirou fundo para se acalmar. Aos poucos se recompondo. Eles não tinham relações sexuais com tanta frequência, mas tinham. Semanas depois da última discussão Jane, enquanto tomava o café da manhã, com aquele cheiro forte de café, falou para Ricardo:
            __ Estou grávida.
            Ricardo deixou cair o copo com água que segurava e olhava para a esposa sem acreditar. Ela, por sua vez, mostrou os exames.
            __ Mas você disse que não podia... __ Começou Ricardo e logo foi interrompido por Jane.
            __ Deve ter sido um milagre. __ Disse ela sem parar de tomar café.
           
            Veio uma linda menina. A qual recebeu o nome de Vitória, pois Ricardo decidiu acreditar que ela era realmente um milagre.
            Três anos se passaram. Vitória costumava apanhar bastante da mãe enquanto Ricardo estava no trabalho. Ele se formara em administração. Ela largara a faculdade. A desculpa foi que teria que cuidar da “maldita criança” que ele tanto queria e que Deus resolvera dar a ele de presente. As discussões ficavam cada vez mais agressivas e Jane batia tanto na menina como no marido. Às vezes ameaçava se matar com uma faca fazendo cortes no próprio braço e até no pescoço.
            Ricardo estava na praça do centro da cidade em um fim de semana. Jane havia ficado em casa. Vitória ficava na casa da vó, pois Ricardo não deixava a menina com a mãe de forma alguma. Uma amiga o encontrou por acaso e ambos começaram a conversar perto de um lago, o qual era um cartão postal da cidade.
            __ Como vai o casamento? __ Perguntou a moça tomando um sorvete. __ Nunca mais te vi com Jane aqui na praça.
            __ Ela anda meio doente, sabe? __ Mentiu Ricardo. __ Mas estamos muito bem.
            __ Gostaria de conversar com sua mulher sobre... __ A moça começou a falar quando alguém puxou seus cabelos com brutalidade.
            Jane estava segurando os cabelos da mulher com força.
            __ Então é isso que você vem fazer na praça quando não está apanhando de mim em casa, Ricardo? __ Perguntou Jane com os olhos vermelhos e lágrimas escorrendo.
            __ O que você está fazendo aqui, Jane? Solte-a! __ Ricardo falou se aproximando para tentar acalmar a esposa.
            Por sua vez, Jane apertou mais os cabelos da moça que chorava e se encontrava de joelhos. Uma multidão se aglomerava ao redor. Muitas pessoas com celulares filmando e tirando fotos para postar nas redes sociais. O momento mais marcante aconteceu quando Jane jogara a moça dentro do lago e correu, aos gritos, para arranhar Ricardo. Este descobria, depois do acontecido, que Jane sempre o seguia até o trabalho, a faculdade e qualquer outro local da cidade.
            A polícia foi até o local e, com o consentimento de Ricardo, foi levada para a delegacia. Ricardo recebeu uma notícia que dilacerou ainda mais seu coração: a polícia descobrira que Jane estava usando uma identidade falsa. Era uma fugitiva antiga do manicômio que ficava fora da cidade. A notícia não foi muito divulgada na época devido a um incêndio causado dentro do próprio manicômio, provavelmente iniciado pela própria fugitiva, e os indícios levaram todos a crer que ela havia morrido queimada até não sobrar nada que não fossem cinzas e um pouco de loucura. A fugitiva, descobriram em seguida, havia matado uma mulher que vivia sozinha e tomara sua identidade. Os salgados que ela vendia na faculdade eram feitos com carne de cachorro e de gato que ela matava pela rua em que morava, em uma favela na periferia da cidade.
            Depois de anos vivendo com uma psicopata insana, Ricardo deixara Vitória com a vó e decidira descansar em casa por algumas horas.
            Chegou em casa perto do anoitecer e ao abrir a porta sentiu uma pontada no fundo de sua mente. Algo estava errado. A televisão estava ligada e no noticiário algo que mexeu com seu coração: “...outro incêndio está acontecendo no manicômio situado nos arredores da cidade. Três enfermeiros e dois seguranças foram mortos e alguns pacientes estão desaparecidos...”. Então Ricardo percebeu o que foi aquela pontada ao entrar em casa. O cheiro de café que vinha da cozinha. Jane se aproximou por trás e deu um chute nas costas de Ricardo para que ele entrasse em casa e ficasse caído no chão.
            __ Oi, meu anjo! Saudades de você! __ Dizia Jane. Ela agora estava totalmente transformada. Seus cabelos foram cortados bem curtos e boa parte estava queimado. Alguns dentes estavam faltando em sua boca que costumava dar belos sorrisos. Manchas horríveis se espalhavam por seus braços. A única coisa que lembrava os velhos tempos eram seus olhos vermelhos e as lágrimas que não paravam de minar.
            __ Por que você fez isso tudo comigo, Jane? __ Perguntou Ricardo chorando.
            __ Você acha que vai se livrar de mim? __ Perguntou Jane ignorando a pergunta do ex-marido. __ Você é meu para todo o sempre, Amém! Entendeu, meu amor? Eu adoro você! Eu sei que você me adora também. Eu dei uma maldita filha pra você, não dei? Agora temos que fazer o maldito filho também! Você sempre quis um casal.
            Jane andava de um lado para o outro enquanto Ricardo levantava e corria para a cozinha chorando. Ela ficou na frente da televisão assistindo o que havia feito no manicômio pela segunda vez. Sentada no chão segurando os próprios joelhos e se balançando para frente e para trás.
            __ Venha assistir comigo, meu bem! __ Chamou Jane. __ Venha porque esse filme eu já assisti e sei que é muito bom. Quer que eu faça uns salgados? Acabei de matar o cachorro da vizinha.
            Ricardo mirou a faca no pescoço da ex-mulher, mas ela percebeu no último segundo e esquivou. Segurou no braço do ex-marido e o jogou no chão com uma grande força impulsionada por toda a loucura. Os dois brigaram. No mesmo instante em que Ricardo sentiu a pontada em sua mente assim que abriu a porta também soube que algo em sua mente iria modifica-lo para sempre. Ele não suportaria aquela vida mais uma vez. Ele não seria tão paciente com Jane como fora enquanto eram casados. Toda aquela raiva presa fermentara e aquele seria o momento certo de liberá-la, e na pessoa certa.
            __ Venha fazer um menino em mim agora! __ Gritava Jane!
            __ Claro que eu vou fazer um filho em você, meu anjo. __ Disse Ricardo com os olhos vermelhos e lágrimas escorrendo. __ Eu vou fazer mais de um filho em você.
            Jane abriu um sorriso desdentado. Ricardo segurou a faca com força e, com o cabo, golpeou a boca de Jane. O restante dos dentes se partiu e a mulher gritou desfazendo o sorriso espanto e dor. Ela foi lançada contra a televisão, que em seguida caiu por cima do corpo da mulher.
            __ Ricardo, faça um filho em mim, Ricardo! __ Fala Jane sem muita força. As palavras saindo com esforço por causa da quantidade de sangue e dentes que insistiam em sair de sua boca.
            __ Querida! __ Falou Ricardo sorrindo com surpresa. __ Acho que o café ficou pronto! Você quer tomar um pouco.
            Ricardo foi até a cozinha e trouxe a chaleira com o café que fervia.
            __ Vamos lá, vou dar na sua boquinha bonita. Abra. __ Mandou Ricardo.
            Jane fez não com a cabeça fechando a boca.
            __ Vamos, queria, abra a boquinha. __ Pedia Ricardo sorrindo e chorando enquanto a chaleira expelia o vapor do café. __ Então tá, vai com a boquinha fechada mesmo.
            Ricardo despejou lentamente o café fervendo no rosto de Jane que gritava e ao mesmo tempo se afogava no café quente enquanto a pele de seu rosto borbulhava e criava bolhas que logo estouravam e cuspiam sangue.

            __ Hoje nós teremos nossa segunda lua de mel. __ Disse Ricardo indo para cozinha colocar mais café no fogo.