quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Rage against the supermercado


       

Vocês já viram o que acontece quando você está numa fila cheia de caixa de supermercado, com várias outras filas cheias de outros caixas, e de repente um caixa que estava fechado grita: “caixa livre”? Vocês já viram? Eu vi e, por sorte, fiquei vivo para contar pra vocês.
Realmente eu não esperava que fosse acontecer bem na minha frente o que aconteceu bem na minha frente. Eu estava de boa no riacho com minhas compras com menos de doze unidades numa fila com mais de doze pessoas. Os outros caixas estavam desse jeito ou pior. Exatamente do lado do meu caixa havia outro caixa fechado, ou seja, sem ninguém. Era um porto seguro rodeado por zumbis.
Eu já tinha colocado na minha cabeça: ficarei nesta mesma fila até eu ser atendido, não mudarei de caixa na ilusão de que a outra fila está andando mais rápido. MAS, como falei antes, de repente, só ouvi uma voz feminina proferir a sentença maldita: caixa livre!
Sabe quando sua vida corre perigo e você começa a ver tudo em câmera lenta? Quando a adrenalina entra em ação e seu corpo reage sozinho na luta pela sobrevivência? Pois foi exatamente isso que salvou minha vida.
Depois da sentença maldita, a mulher que estava na minha frente, com um carrinho com MAIS de doze produtos, desatou a correr empurrando o veículo de compras ferozmente. Do mesmo modo e no mesmo instante, outra mulher do caixa adjacente ao caixa livre resolveu fazer a mesma ação, como em um jogo de RPG onde dois personagens agem na mesma jogada. Os gritos ecoaram por todo o supermercado logo em seguida, porque vocês sabem, a velocidade da luz é maior do que a do som, como quando você vê um relâmpago no céu e depois ouve o trovão.
Pessoas de todas as filas e de todos os caixas começaram a invadir aquele espaço tentando ser a primeira pessoa a ser atendida no caixa livre. Até pessoas que estavam nos caixas de grandes compras. Várias colisões entre carrinhos começaram a acontecer. Pessoas eram jogadas para os lados, algumas crianças atropeladas por carrinhos cheios de cervejas. Quem tinha comprado facas começaram a usá-las para cortar quem estivesse por perto, ou seja, muitas pessoas. Idosos que estavam nos caixas exclusivos para idosos começaram a atacar uns aos outros com suas bengalas, os que tinham mais força arremessavam seus produtos. Carrinhos começaram a voar pelos céus, pessoas começavam a cair mortas e a selvageria parecia que iria demorar para acabar. E enquanto isso os funcionários continuavam passando as compras dos clientes como se nada estivesse acontecendo. E no caixa livre ninguém conseguia ser o primeiro a ser atendido. Vi quando uma geladeira era arremessada e caía no meio do frenesi como uma bomba. Pessoas esmagadas. Era como dois mundos: depois dos caixas, a calmaria, as pessoas andavam normais e parecia não estar acontecendo nada do lado de dentro, onde o inferno estava tomando conta da terra. Eu teria que passar para o lado de lá.
Vocês sabem que eu senti aquela vontade imensa de também ser o primeiro a ser atendido no caixa livre. É tentador estar numa fila gigante e, bem na sua frente, abrir um caixa que estava vazio. Mas eu me contive. Com todas as minhas forças. Eu conseguia ver pessoas em chamas correndo na ala dos biscoitos. Pensei no que poderia fazer para conseguir sair vivo dali, e, o mais importante, com as minhas compras. Então meu corpo agiu sozinho. TODOS os outros caixas estavam livres, mas todo mundo queria o caixa livre. Rapidamente eu me dirigi ao caixa mais distante e específico para compras até 12 produtos.
__ Bom dia, quer o CPF na nota? __ A moça do caixa me perguntou.
__ Não, não... __ Respondi respirando ofegante.
Depois que minhas compras passaram eu agradeci e saí para o lado da calmaria quando esta mesma moça proferiu a sentença maldita: caixa livre!


            

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