sábado, 14 de fevereiro de 2015

Aniversários



Tive muitas mudanças de pensamento quanto ao dia do meu aniversário. Quando era criança ( até uns 12 anos) eu sempre queria festas e presentes. Era uma obrigação ter festa e presentes. era obrigação ter uma vela - depois duas - em cima do bolo pra eu assoprar e pedir secretamente alguma coisa que eu não lembro mais o que era. Claro que nem todo ano eu tinha o aniversário, eu nem me lembro direito, mas, a partir dos 15 anos, quando eu já havia conhecido as mãos quentes dos destilados - escondido, por sinal - as festinhas tinham um pouco deles, escondidos também. A partir daí eu já nem me importava mais com os presentes, mas ainda queria ganhar sim!. Acho que na minha festinha de 15 anos resolvemos assistir "O Exorcista" pra animar um pouco. Depois disso não tinha mais festa, os presentes diminuíram drasticamente e eu também não me importava muito, mas a minha família tinha que me dar alguma coisa. No de 18 anos eu chorei muito pra poder ganhar um celular, no tempo, um nokia com o jogo snake, por que era a sensação do momento, galero! O bolo, até aí e mais um pouco, sempre foi de lei. Mesmo sem convidados ou o que quer que seja, a família estava presente e o bolo era necessário, como um ritual a cada ano. Não precisava mais de duas velas, cada uma representando uma dezena e uma unidade, só precisava de uma única vela para o pedido secreto, que, eu lembro, começou a ficar sério. 

A partir dos 20 anos, eu já trabalhando e estudando, responsável, mas ainda saindo aos fins de semana para festas e tal, eu mesmo organizava a festa. Daí eu já tinha também conhecido o beijo quente da nicotina na minha mente - e outras coisas na minha mente também. As bebidas já eram liberadas, já não tinha importância receber presentes, mas quando eu recebia, dos meus amigos, eram livros, retratos e lembranças. O importante para mim era fazer com que os outros tivessem bons momentos no meu aniversário, que bebessem, que fumassem e que se divertissem. Até algum momento desta fase a mania de ficar conversando no whatsapp, tirando fotos e vídeos apenas na intenção de fazer as pessoas passarem vergonha ainda não estava na moda. E meu celular continuava sendo o nokia lanterninha com o jogo da cobrinha - não o mesmo do que eu ganhei aos 18 anos, porque né...

Então agora, creio que nos últimos dois ou três anos eu não faço mais questão de festas, presentes ou até o bolo com a vela, porque, não sei ao certo, mas este deve ser o primeiro ano no qual eu não comemoro meu aniversário com um bolo e uma vela. Nesses últimos anos pensei no significado do meu aniversário e percebi que não mais é o de ganhar presentes e festas, como na minha infância, nem o de beber e fumar sem limites, como na minha adolescência e início da idade adulta. Pra mim, hoje, é maior do que tudo isso. Tenho absoluta certeza de que as fases que passei, os pensamentos que tive e os presentes que ganhei em cada um dos meus aniversários foram importantes para ter o pensamento e a identidade que tenho hoje. Mas, diferente dos anos que passaram, pra mim, a mudança de ano está sendo hoje. E venho ganhando muitos presentes: palavras de carinho de conhecidos, colegas, amigos, irmãos de alma e da minha família. A certeza de que estou num caminho buscando meus sonhos sem precisar passar por cima de ninguém. De que estou usando meu tempo para fazer coisas proveitosas não só pra mim, mas para o próximo também. Venho tentando descobrir o que é o amor ao próximo em todos os sentidos e pelo que tenho visto, é o que a maioria das religiões prega, mas isso já estava na cara desde o começo. Eu ganho presentes todos os dias ao sair de casa e olhar com atenção as coisas que estão a minha volta (não quero parecer louco aqui, mas falo de ver as árvores na rua, sentir o vento na cara... kkkkkkkk, é sério! ¬,¬)

Hoje as coisas mudaram muito. Todos nós somos mais ocupados e nem sempre é possível receber um abraço de feliz aniversário. Creio que seja a evolução das coisas que sempre nos separa e nos uni num intenso paradoxo. Na medida em que podemos conhecer centenas de pessoas rapidamente, só podemos abraçar uma ou duas. Triste de saber, mas parece que algumas coisas precisam ser sacrificadas para poder haver o desenvolvimento de outras. Precisamos aprender a ser o receptáculo das pessoas que nos fazem bem porque mesmo longe podemos sentir a presença delas no nosso lado, a era virtual tem seus pontos positivos e negativos, venho procurando utilizá-la de forma a não me desprender da realidade e do contato com as pessoas de carne e osso - e não só de números binários.


Portanto (como nas redações), eu tenho muito mais a agradecer do que a pedir no dia de hoje. E enquanto isso, mesmo sem o bolo e as velas do dia de hoje, eu vou realizando os desejos que pedi naquelas velas que soprei lá na minha infância.