O rapaz estava trancado dentro do quarto há horas sem dizer uma palavra e sem fazer nenhum barulho. A família resolveu chamar os bombeiros para que arrombassem a porta, já que só a mãe do rapaz e a irmã estavam em casa.
Alguns minutos depois os bombeiros chegaram.
__ O quarto é ali. __ Apontou a mãe para uma porta no fim do corredor.
Enquanto um bombeiro conversava com a mãe e a irmã do rapaz, o outro foi caminhando pelo corredor até chegar na porta.
__ Mário! __ Chamou o bombeiro.
Nenhuma resposta.
O bombeiro bateu três vezes na porta e chamou novamente.
Nenhuma resposta.
__ Mário! Nós viemos para te ajudar, pode abrir a porta. __ Pediu o bombeiro.
A porta abriu alguns centímetros. O bombeiro começou a entrar no quarto vagarosamente. Os outros olhavam de longe e esperavam apreensivos.
Ao entrar no quarto o bombeiro se assustou um pouco ao ver o rapaz sentado na cama com mais duas pessoas, outro rapaz do lado direito e uma moça do lado esquerdo. Mário parecia muito pálido e olhava para o chão. O rapaz do lado direito também olhava para o chão e a moça olhava para o armário.
__ Por que você trancou a porta do quarto? __ Perguntou o bombeiro se aproximando devagar.
__ Porque o mundo daí para fora já não me compreende... __ Disse Mário olhando diretamente nos olhos do bombeiro, o que o assustou um pouco. Os olhos do rapaz eram vazios e pareciam transpassar o homem que se aproximava.
__ Sua mãe e sua irmã estavam preocupadas com você...
O rapaz do lado direito olhou para o bombeiro.
O bombeiro deu um salto para trás e quase soltou um grito quando sentiu algo passas por seus pés, ao olhar, viu um pequeno labrador marrom brincando com seu coturno.
__ De quem é esse cachorro? __ Perguntou o bombeiro se recuperando do susto.
__ É nosso. __ Respondeu a moça.
__ A mão do Mário disse que ele estava sozinho aqui dentro. __ Disse o bombeiro. __ Por que vocês não responderam quando ela chamou?
__ Não não estávamos aqui o tempo todo... __ Disse o rapaz da direita. __ O Mário te disse que esse mundo já não o compreende, não disse?
O cachorro foi até os pés descalços de Mário e começou a lamber seus dedos. Mário abriu um leve sorriso ao sentir cócegas, mas seu olhar continuava distante.
__ Vamos, Mário. Deixe que sua mãe e sua irmã venham ficar com você. __ Disse o bombeiro. __ Elas estão preocupadas.
__ Elas também não me compreendem. __ Disse Mário colocando o cachorro no colo. __ Mas elas não têm culpa... Sinto que elas não enxergam o mundo como nós e você.
__ Eu? __ Perguntou o bombeiro.
__ Pode dizer a minha mãe que estou bem e que ela e minha irmã podem entrar no quarto... __ Disse Mário.
O bombeiro olhou um tempo para todos que estavam na cama e disse: __Muito bem Mário, vou chamá-las. __ Ao sair do quarto ouviu quando o rapaz e a moça deram um "tchau" e o cachorro um latido.
Ao saírem da casa da mulher e entrarem na viatura, os outros dois bombeiros, um dirigia e outro ia na frente, parabenizaram-no pelo trabalho e começaram a conversar:
__ A mãe do garoto disse que ele tem alguns problemas psicológicos... __ Disse o motorista.
__ Mas foi a primeira vez que ele se trancou no quarto por tanto tempo... __ Disse o que estava na frente.
__ Ela deveria ter dito que o Mário tinha um cachorro dentro do quarto... __ Disse o bombeiro que conversou com Mário. __ Quase piso nele.
__ Cachorro? __ Perguntou o motorista. __A irmã dele disse que ele tem dois amigos invisíveis que só ele consegue ver. É por isso que elas estão pensando em interná-lo. E eles não têm cachorro nenhum na casa, pelo menos foi p que a mãe dele disse. E por falar nisso, como você sabia que o nome do rapaz era Mário?
Uma lágrima percorreu o rosto do bombeiro que falou com Mário.